sexta-feira, 4 de abril de 2014

ROLEZINHO DE ARMANI



Na entrada da biblioteca da PUC um cartaz me chamou atenção. Dizia:  A etnografia do rolezinho - consumo, marcas e periferia. Abaixo, a foto bem produzida de uma mulher bonita, jovem e sorridente. Achei curioso. Ao lado, as informações: Rosana Pinheiro Machado, professora de antropologia do desenvolvimento da Universidade de Oxford.  Pelo tema contemporâneo e pela palestrante, fiquei instigada em ir conferir. E lá fui eu.
A partir da fala da Rosana, vou comentar algumas coisas que aprendi sobre o tema...
Ela começa falando da importância de integrar a academia com a sociedade/a mídia/os estudantes/etc. Concordo. Um discurso teórico centrado em si próprio, fechado em si mesmo, apenas compreensível para os especialistas da área, contribui de forma muito limitada para o desenvolvimento da cultura e da civilização. Limita, e muito, o seu uso prático pelas diferentes realidades. Segregando o saber, segrega-se o poder, as classes, os gêneros, as raças e tudo mais.  O saber precisa ser acessível!
A cientista aponta que o fenômeno do rolezinho trouxe a tona de maneira paradigmática uma marca da sociedade brasileira: a segregação. Ricos e pobres não se misturam. Brancos e negros não andam juntos. “O rolezinho deixa claro o apartheid brasileiro.” Afirma.
Rolezinho é política?  Em um alargamento do conceito de política, sim, é. “Nós só queremos nos divertir.” Dizem eles.  Mas apenas “se divertir” se torna um ato político se milhares de jovens vão juntos para um shopping e são reprimidos pela segurança do local. Se isso vira notícia. Se isso quebra o fluxo da normalidade. Se isso diz alguma coisa para além do que acha que está dizendo. “Nós só queremos nos divertir.” Será mesmo?
Os rolezinhos fazem parte de um fenômeno maior que se chama ‘bondes’. Bondes são gangues juvenis formadas por jovens de camadas sociais desfavorecidas. De dia, rolezinhos, de noite, bailes funks. Nos rolezinhos, os meninos vão na frente, vestidos com marcas de luxo, e as meninas vão atrás. Para elas, não é tão importante o uso de marcas. “Quanto mais marca, mais mina.” Dizem eles. “As mina tem peito e bunda, a gente só tem marca.” Outra pérola. Rosana observa que, nesse movimento, as mulheres são também tratadas como mercadoria.
Rosana introduz que Marx já falava sobre o fetiche da mercadoria. Nas sociedades capitalistas, os produtos possuem “magia”. A mais valia das marcas,  nesse contexto, é infinita. O marketing do amor.  Marqueteiros estudam meios de fazer com que os consumidores se apaixonem, e realmente amem, o produto consumível. Na era pós-moderna, onde os valores tradicionais se descontroem, as marcas adquirem um valor religioso.  Fala, ainda, que antropólogos que estudam o tema e pesquisam junto a CEOs de multinacionais, revelam que o objetivo é que o sujeito se apaixone pelo símbolo, pela marca, e que o produto em sí tenha cada vez menos valor.
O depoimento de uma entrevistada surpreende: “Tenho 12 filhos e não posso dar educação, carro, casa para todos. Dou roupas caras, é o melhor que posso oferecer.”
De fato, quem estuda a pobreza, sabe que ninguém se acha pobre. Comenta. A riqueza é relacional. É relativa. É reativa. A maior parte dos produtos de marca ostentados pelos jovens do rolezinho não são roubados por eles.  Eles guardam tudo o que podem para poder ter um símbolo da nike. Eles compram de quem rouba.
As marcas de luxo entram em desespero. Pessoas pobres e negras usando os produtos especialmente desenhados e moldados aos gostos dos ricos e brancos. Isso desvaloriza o produto, a imagem, o conceito. A Armani,  foi a única marca de luxo que abusou do fenômeno de forma inteligente. Desenvolveu uma coleção especial para o rolezinho. Assim, não desvaloriza as outras coleções – destinada aos ricos e poderosos -  e ao mesmo tempo, não faz pouco caso a paixão por marcas luxuosas da classe C brasileira.
Nos outlets de Miami, todos os dias, brasileiros fazem rolezinhos em buscas de objetos de marcas de luxo em promoção. As vendedoras comentam: “esses brasileiros são uns desesperados”. Desses rolezinhos ninguém fala nada.
Os rolezinhos são uma tentativa de inserção social, das camadas excluídas,  através do consumo. Em uma realidade de violência estrutural, onde há a negação das necessidades mais elementares para um desenvolvimento digno, parece  ser uma opção possível, e também, bizarra. 
Enquanto não lhe forem oferecidas outras formas de riqueza, como a riqueza simbólica via uma educação de qualidade, por exemplo, os produtos de marcas de luxo, oferecidos em verdadeiros bombardeios pelas mídias como símbolos de poder e realização, serão alvos do desejo.



Abaixo, o site da palestrante, que por sinal, é premiadíssima. Vale a pena conferir!
http://www.rosanapinheiromachado.com.br

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Marilyn Monroe: uma vida de atos. (Fantasia ou realidade?)




A vida de Marilyn Monroe é daquele tipo inacreditável. Vida que parece que foi escrita para ser um filme de cinema ou uma peça de teatro. Fantasia ou realidade? Os dois.
 “A verdade tem estrutura de ficção.”
Norma Jean nasceu como uma menina quase comum. Quase.  Nunca conheceu o pai, e, devido aos problemas psicológicos de sua mãe – que era constantemente internada – foi criada por amigos, vizinhos, e enfim, orfanatos. Sempre que se adaptava em um lugar, que começava a se apegar e a gostar das pessoas que constituíam a sua “família”, algo acontecia e fazia com que ela tivesse que se mudar. A princípio, foi sem escolha: sempre inconstante, insegura.
Gladys, sua mãe, quando a visitava, dizia: “Um dia você será uma estrela de cinema!” Gladys trabalhava, quando estava bem, na indústria cinematográfica.
Ainda bem jovem, com 17, teve a oportunidade de se casar. Era a chance de ter um lugar, uma família, um porto seguro. Norma não hesitou e se casou com um típico rapaz da classe média tradicional americana. Mas a união não durou muito… O marido viajava muito a trabalho e Norma ficava. E algo dentro dela a dizia que ela não era uma tradicional esposa americana. Que o seu papel não era o de ficar dentro de casa, esperando o marido voltar, cuidando das crianças, cozinhando… Algo nela se movimentava constantemente. Uma coisa dentro dela era por de mais dinâmica, possuía muita energia, e precisava usá-la. Queria, também, ter seu próprio dinheiro. Nunca conhecera a estabilidade e não sabia viver com ela.
Foi então que começou a trabalhar em uma fábrica fazendo um trabalho mecânico e braçal. Chamava a  atenção por onde ia, e, enquanto trabalhava começou a atrair a atenção dos colegas homens e a inveja das mulheres. Virou assunto. Usava roupas justas que acentuavam seus contornos perfeitos, seu traços muito sensuais e ingênuos ao mesmo tempo. Era isso que perturbava, que comovia os olhares de uma forma estranha. Era incomum. Sua pele reluzia e brilhava como uma estrela. Ela era diferente.
Foi quando um fotógrafo a viu trabalhando e a chamou para uma sessão de fotos. A partir desse momento não parou mais. Encontrou nas lentes o olhar onde podia revelar-se, entregar-se.  A lente da câmera fotográfica representava o olhar que lhe faltava, e o seu desejo era o de ser vista,  amada, ser admirada, ser desejada por esse olhar que não estava lá, mas que em algum momento estaria. Queria ser notada. Fotografando, tinha desenvoltura, era vulnerável e forte ao mesmo tempo. Simples e Complexa. Ria com vontade, vontade amedontradora de ser feliz em algum lugar, em algum tempo. Vontade de se divertir, de viver com prazer. Iniciou a fazer aulas de teatro pois queria evoluir em suas representações.
Seu marido não ficou nada contente com a nova profissão de sua esposa. Modelo, atriz?  Isso era coisa de mulher direita? Em um momento ela teve que escolher: ou a vida de esposa tradicional ou a vida profissional. Escolheu brilhar. Norma virou Marilyn. 


“Um dia você será uma estrela de cinema!” A voz de sua mãe – esperançosa,  enlouquecida – ecoava em algum lugar dentro e fora dela, ininterruptamente.
Na sua constante demanda de atenção e desejo teve diversos relacionamentos. Diretores de teatro, esportistas renomados, autores, politicos, cantores, desconhecidos. Queria ser amada.
Queria também, ser uma atriz de verdade. Ser reconhecida pelo seu trabalho, pela sua produção. Queria ser inteligente, culta. Lia Freud e outros pensadores. No entando, seu papel de sex symbol parecia estar inscrito nela. Era chamada para papéis vulgares; loira burra, secretária sedutora, amante. Ela tentava fugir, mas era isso que atraía com força.  
“Um dia você será uma estrela de cinema!”
No cinema, sua imagem reluzia e era fascinante para o público. Passou a receber milhares de cartas por semana. Todos pediam Marilyn. Produtores, diretores, não podiam negar;  tratava-se de um fenômeno.
Mas Marilyn era insegura. Demorava horas para entrar em cena pois achava que não daria conta. Chorava, gemia. Precisava que sua professora estivesse ao seu lado, dando dicas, aconselhando. Não sentia que era capaz, mas algo a fazia entrar em cena, mesmo depois de horas suspensas em puro terror e sofrimento. Algo a impulsionava, algo maior do que ela; essa mulherzinha enlouquecidamente bonita e frágil.
Ficava cada vez mais conhecida e desejada pelas massas. Passou a fazer uso abusivo de álcool, remédios, drogas. Sua casa era toda branca, sem móveis, livros espalhados pelo chão e um único objeto que realmente se sobressaía; um piano branco que havia sido de sua mãe. Sonhava em salvar sua mãe da loucura algum dia, trazer ela para morar consigo.
Seu estado psíquico era cada vez mais abalado. Conseguiu se tornar uma atriz famosa, mas o título de sex symbol era uma verdade que a incomodava. Queria ser mais, ir além. Mas era isso, e não conseguia fugir. Casou-se com Arthur Miller, intelectual politizado, que se separou da mulher para ficar com ela.  Em pouco tempo separaram-se.


Queria engravidar, nunca conseguiu completar uma gestação.
Tornou-se dependente de seu psicanalista.
Nada nunca era o suficiente. Marilyn era sua própria tentação, seu próprio enigma, seu próprio pecado.
Nunca se sentira realmente amada por um homem. Não tinha um pai, e, nos outros homens, buscava preencher essa falta incomensurável. Repetidas tentativas frustradas de fazer existir o que não existe. Ela nunca se conformou. 
“Um dia você será uma estrela de cinema!”
No desejo de realizar o desejo de sua mãe, Marilyn se tornou uma das atrizes mais conhecidas da história do cinema. Por sua beleza? Sensualidade? História? Acaso? Isso tudo e nada disso. Os fatores que determinam um acontecimento são muitas vezes indetermináveis. 
Brilhou de uma forma esquisita, intensa, e dolorosa. Morreu jovem, não se sabe se por suicídio ou assassinato. Sua chama, de tão forte e sem limites, consumiu a sua própria vida, levando-a a estrelar na morte rumo a imperecibilidade dos símbolos.
“Um dia você será uma estrela de cinema!”
Algumas palavras determinam uma mulher, uma história, um destino; a vida e a morte. 
Algumas palavras são arte.
Já prestou atenção nas suas palavras?





domingo, 24 de novembro de 2013

QUEM SÃO AS BRUXAS DE HOJE?




Freud escreveu sobre a moral sexual dupla em seu texto de 1908: “MORAL SEXUAL CIVILIZADA E DOENÇA NERVOSA MODERNA”. Desde lá, é evidente que as sociedades sofreram transformações, bem como a moral sexual civilizada vigente. Nos interessa pensar, enquanto estudiosos da psiquê humana, de que forma as mudanças sociais mediam a constituição das subjetividades de nosso tempo.

Em seu texto, Freud é claro: aos homens e as mulheres é imposta uma moral sexual civilizada distinta. A moral dedicada as mulheres é mais restrita; o exercício das suas vidas sexuais é reservado exclusivamente ao casamento. Na época de Freud, de forma geral, os homens casavam com a mulher que seria a mãe de seus filhos, virgens por exigência, enquanto realizavam suas fantasias sexuais com as outras, nas casas de luz vermelha. 
Mas desde quando a moral sexual civilizada imposta as mulheres é mais severa? Segundo Lins, foi aproximadamente há 5 mil anos atrás que a maior parte das sociedades mundiais tornaram-se patriarcais.  Isso quer dizer que o poder legítimo, exercido em qualquer esfera, foi concentrado nas mãos dos homens. Nesse cenário, as mulheres passaram a ser objetos. Objetos de troca entre as famílias, sempre chefiadas por homens. A sexualidade da mulher passou então a ser controlada, vigiada e oprimida. A função das mulheres limitou-se ao gerenciamento do lar e a criação dos filhos. Deveriam ficar longe o suficiente do saber, da política, da cultura e das artes.
Nos textos de Freud, ele com frequência fala das feministas, pois em todas as épocas existiram, de fato, mulheres que não aceitavam o papel que as sociedades lhes ofereciam. E por isso, pagavam um preço, geralmente alto. (Que nos digam as bruxas queimadas vivas em praça pública na Idade Média) Seriam as feministas de cada tempo mulheres que possuem um complexo de masculinidade acentuado? Seriam histéricas? Seriam outra coisa?
No entanto, foi nos anos 60 do século passado que a situação das mulheres se modificou radicalmente. Com a segunda Guerra mundial, movimentos de contracultura floresceram no mundo. Houve o boom da Revolução sexual; foi inventada a pílula anticoncepcional, que separou definitivamente o prazer sexual das mulheres da reprodução. O movimento Flowerpower gritava: make love, not war! E os jovens cantavam: I can get no, satisfaction, but I try, and I try, and I try. (que quer dizer: eu não consigo me satisfazer, mas eu tento, e eu tento, e eu tento.)


Atualmente, na aurora do século 21, principalmente nos países de primeiro mundo, podemos observar o que Colette Soler, em seu livro O que Lacan dizia das mulheres, chamou de uma tendência unisex, ou seja, uma tentativa de homogeinização dos sexos, visando apagar a diferença sexual. As características que distinguiam o masculino do feminino estão se dissolvendo. A valorização da individualidade, projetada pelo Mercado, contribui com isso. É comum ouvir jovens dizerem: “não gosto de homem ou de mulher, gosto de pessoas.” O que isso quer dizer? O que Freud diria da moral sexual civilizada contemporânea? Uma questão para se refletir… 


domingo, 14 de julho de 2013

A LINGUAGEM SINGULAR DA MODA

 
 
Por convenção social não podemos andar pelados por aí. Em alguns lugares, por exigências naturais - pois faz muito frio, por exemplo -  em outros, por questões culturais - e este é muito mais o caso a ser tratado aqui - temos que cobrir os nossos corpos. Temos que esconder as nossas "vergonhas", enfeitando nossas estruturas biológicas com produções da civilização.
 
 
Em sociedade, qualquer escolha - mesmo a escolha de peças de roupas - passa a ser uma representação, uma forma de linguagem, o que possibilita o laço social. Nos identificamos, nos diferenciamos, nos transformamos, a partir das escolhas que fazemos.
O modo de se vestir - a moda - pode acontecer de forma massificada ou singular, assim como outros processos da subjetividade. E para algumas pessoas, isso não é e nem pode ser prioridade. Vestir-se, antes de mais nada, antes de qualquer capricho ou vaidade, é uma necessidade. Em muitos casos, veste-se o que se tem, ou o que se deve,  e essa é a realidade de um grande número de pessoas. Contudo,  isso  não deixa de ser uma linguagem que fala sobre a realidade social de determinado espaço-tempo, na qual os sujeitos estão inseridos.
 
 
Estar presa aos ditames da moda sempre me pareceu algo insensato e cansativo. As tendências mudam como o vento, e as pessoas parecem correr que nem loucas para se adaptar a elas. Penso que são as tendências da moda que devem dialogar com o estilo singular de cada pessoa.
 
 
Tenho o pensamento de que, em um mundo ideal, a filosofia da moda seria a de "poucas e boas". Na filosofia "poucas e boas ", possível em um mundo mais justo e consciente, as pessoas teriam um arsenal com roupas de boa qualidade, esteticamente belas e representativas, mas em pouca quantidade. Muita qualidade e pouca quantidade. Nesse mundo, repetir roupa não seria um problema, e sim uma marca de personalidade e estilo. Quando vejo algumas pessoas reclamando que "não querem repetir tal roupa", sinto um sentimento estranho. Quando gosto de uma roupa quero repeti-la ao máximo, pois foi por gostar dela, e me sentir bem nela, que a adquirí. E a repetição dela em mim a faz mais minha, cada vez que a uso ela se adapta mais ao meu corpo. É claro que isso tem um limite. Quando ela rasgar, ou ficar surrada, ela pode ter outro uso - posso usá-la em casa, ou para tomar banho de chuva, ou para fazer aventuras - ou posso pedir para alguém criativo, da área da moda, inventar algo legal para reconstruí-la. Posso também fazer um intercâmbio de roupas com minhas amigas e conhecidas.
 
 
Agora que cheguei nesse ponto, vou apresentar para vocês uma garota-mulher muito original, uma amiga nada previsível mas muito talentosa e divertida, que está inaugurando um blog sobre o universo criativo da moda. Senhorita Laís Giusti. Foi ela que, com o seu texto inaugural, me fez pensar sobre a função da moda em nossas vidas.
 
 
Acredito que será um sucesso, pois ela tem uma visão diferente, e não massificada, do que é, mas principalmente do que pode vir a ser a Moda, para cada pessoa.
 
Beijos mil.

domingo, 7 de julho de 2013

Como os franceses inventaram o AMOR?



O livro 'Como os franceses inventaram o amor' fala de uma forma bastante acessível sobre a construção cultural da idéia de amor, de romance e de paixão. A autora, Marilyn Yalom, viveu na França e nos Estados Unidos e trabalha estabelecendo relações entre as diferenças de se entender e viver o amor nesses dois países.  Estou adorando a leitura!

O foco do livro é o Amor na história da França. Como sabemos, a cultura francesa foi, durante muito tempo, a referência máxima em termos de arte e civilização no Ocidente. Na arte do amor, eles também produziram muito. Logo no começo do livro, Marilyn nos conta sobre as características que constituem a arte de amar francesa: o respeito a individualidade do parceiro, a valorização do mistério na relação, a importância dos segredos e do sexo. Ela usa uma metáfora: é como se uma relação amorosa fosse representada por dois círculos sobrepostos - existe uma parte que se encontra, mas existe outra que nunca se toca. 

Já nos Estados Unidos, a ênfase recai sobre a instituição da família e o papel social a ser realizado em um relacionamento. A posse do parceiro é "naturalizada" e a infidelidade condenada. Os segredos são vistos como falha de caráter. Em tal contexto, o mistério não encontra espaço e a individualidade autêntica é confundida com o individualismo compartilhado.

A uma bela mulher francesa - profissional bem sucedida e esposa de um homem público francês - perguntaram: "O que você sente a respeito do apetite sexual extra-conjugal do seu marido?" E ela respondeu: "Não me sinto ofendida, e na verdade, até me orgulho. Desde que ele ainda se sinta atraído por mim e eu por ele." A resposta é inesperada e chocante aos ouvidos mais conservadores, não é mesmo?

No início da Idade Média apareceu na história da França o Amor Cortês. Nele, os homens amavam e veneravam as mulheres, tratando-as como verdadeiras deusas encarnadas. Geralmente, as damas eram de uma classe superior aos homens apaixonados, e estes passavam a vida perseguindo o amor impossível. Naquela época, os casamentos eram arranjados e as pessoas não se casavam por escolha emocional... Homens e mulheres se dedicavam as artes trovadorescas do amor. Se fossem homens, eram trovadores, se mulheres, troibaritz. A Condessa de Die escreveu, expressando seu papel de dominadora:

"Meu bom amigo, tão agradável, tão belo, 
Quando eu o tiver em meu poder,
Dormindo com você a noite,
E puder lhe dar um beijo de amor,
Saiba que meu grande desejo
É ter você, e não meu marido,
Mas apenas se você prometer,
Tudo fazer conforme a minha vontade." 


O sofrimento era uma dádiva ao poeta amante. "Quero que o meu coração sofra de amor. Porque ninguém tem um coração tão fiel quanto o meu." Histórias de amores impossíveis, irrealizáveis, ideais, permearam a Idade Média e eram incentivados pela nobreza. Marie de France escreveu histórias em versos que disseminaram a idéia do fin amour. Não existia nada mais nobre do que o amor, e amar era sinal de nobreza, independentemente do status ou classe social. 

Veio então o Amor Galante, a galanterie, a arte de seduzir e conquistar. O romance e o amor exigiam  comportamentos que lhes atraíssem, e ser galante fazia parte da etiqueta; bem ouvir, bem fazer, bem dizer, bem amar. A galanteria começou na nobreza e se disseminou para as outras classes sociais. Os reis e príncipes podiam ter acesso a inúmeras mulheres; a oficial, as amantes, as cortesãs... Em 1678, Madame da La Fayette publicou anonimamente o livro A princesa de Cleves, um dos primeiros romances psicológicos escritos. Nele, uma princesa que não conhece o amor se sente atraída por um sedutor irremediável que tenta lhe seduzir. Ela resiste a sedução, pois entende que o homem galante nunca se satisfará com suas conquistas. "Confesso que as paixões podem me governar... Mas não podem me cegar... Eu veria você se comportar em relação a outra mulher como se comportou em relação a mim."



Enfim, a autora viaja através do tempo e nos guia em uma aventura que passa pelo Amor Trágico, pelo Amor Cômico, pelo Amor entre os Românticos, pelo Amor Republicano, pelos Existencialistas apaixonados, Pelo Amor entre os Homens, por Moliere, Rousseau, Rimbaud, Marguerite Duras, entre muitos outros amores e autores...Uma jornada e tanto!

Para concluir este texto, deixando as inesgotáveis questões e os enigmas do Amor no ar, cito Rousseau em Julie, ou A nova Heloísa: 

"Sim, minha amiga, estaremos unidos apesar de nossa separação, seremos felizes apesar do destino. É a união de corações que constitui a verdadeira felicidade."






terça-feira, 22 de janeiro de 2013

UM ENCONTRO DE ESTRANHOS





A vida é a arte dos encontros e dos desencontros. Me pego pensando, em diversos momentos, que a sabedoria de viver se encontra justamente aí: em saber fazer aí com os encontros e desencontros da existência.

Quando é que nos permitimos realmente encontrar alguém?

Não em um sentido superficial, mas em um sentido verdadeiro? Ir ao encontro significa que algo precisa ser deixado para trás, algo de mim tem que ceder para que se possa acessar o que não sou eu, o que é o OUTRO.

A arte de encontrar é a arte de amar, de dividir, de compartilhar experiências autênticas e enriquecedoras.  Mas, será que posso encontrar o outro se não sei quem sou? Se ainda não ME encontrei?

Talvez nunca nos encontraremos por inteiro, pois somos feitos de falhas, de pontos cegos; talvez apenas nos apreendemos por pontas. E quando compreendemos a nossa própria inconsistência, podemos aceitar a inconsistência do outro? As falhas do outro? Os limites do outro?

Muitos problemas relacionais se dão pois não aceitamos o outro como um ESTRANHO, simplesmente, como alguém radicalmente diferente de nós. Podemos ter muitas afinidades, mas o outro, por tudo que lhe constitui, é sempre radicalmente diferente, radicalmente OUTRO.  

Acontece que nos foi ensinado, desde a tenra infância, que devemos amar e respeitar os nossos semelhantes, e pode ser que seja essa uma das razões pelas quais temos tanta dificuldade em valorizar as diferenças.


E essa é a beleza da vida; encontrar o estranho e aprender com ele. Respeitá-lo, admirá-lo, observá-lo… Dançar com ele, pintar com ele, cantar com ele. Isso é viver com arte.

O homem e a mulher são estranhos um para o outro. Um ser humano é sempre um estranho para o outro ser humano. Somos estranhos vivendo em um mundo em comum, e é na contemplação das diferenças que uma nova forma de convivência pode surgir.

Uma forma criativa e apaixonante de se relacionar é sempre um encontro de estranhos. Apaixone-se, antes de mais nada, pelo estranho que habita em você.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012



AMOR LÍQUIDO: Sobre a fragilidade dos laços humanos





Com muita frequência converso com as minhas amigas e conhecidas sobre as coisas da alma, sobre os golpes coração, os amores, as paixões, os relacionamentos, ficadas, e por aí vai… Nós mulheres temos um prazer estranho em falar sobre essas coisas; compartilhar experiências, dramas, crenças, aprendizados, e talvez preconceitos…

Com relação a vida da alma e do coração nos tempos hiper-modernos que vivemos hoje, poucas pessoas tratam tão bem do tema quanto o sociólogo Zygmunt Bauman, espírito analítico e sensível, apaixonante criatura que me seduz.

Em sua obra Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos, ele ilumina muitas das questões que nos intrigam atualmente.

-       -*O que acontece atualmente com os relacionamentos humanos?
-       -*O que as pessoas, de modo geral, buscam ao se relacionarem umas com as outras?
-       -*O que media essas mudanças na forma de estabelecer laços afetivos/sexuais/ou qualquer outra espécie de laço?
-      - *O ser humano pós-moderno sabe/quer amar?
-       -*Entre tantas outras perguntas que nos instigam a pensar.

Zygmunt nos ensina que existimos em um período histórico-cultural onde os relacionamentos se dão de forma líquida; possuem como características a liquidez, o imediatismo, a efemeridade, a transitoriedade, o descompromisso. Trocamos de pares assim como trocamos de roupas ou sapatos.

Inseridos em uma lógica de intenso consumo, consumimos pessoas assim como consumimos coisas e experiências. O parceiro, a parceira, o outro, é visto como um objeto/produto a ser consumido, e não como um sujeito que possui uma complexidade em sí.

O objetivo é a busca de prazer imediato. Muito diferente da noção de desejo, que precisa ser cultivado, que necessita de um tempo para existir, que nasce de uma elaboração interna e externa, a lógica do prazer imediato não tem tempo a perder.  A satisfação deve ser instantânea e se não acontecer, a fila anda, como nos caixas do supermercado.

Um extremo individualismo  estrutura essa nova concepção dos laços humanos. O ser contemporâneo se vê como um universo em sí mesmo. Prioriza o seu prazer, os seus feitos, seus objetivos, suas necessidades, e não pretende abrir mão ou modificar algo em seus planos e projetos por outrém. A satisfação instantânea de suas necessidades emocionais/sexuais permite que não haja um envolvimento duradouro ou um compromisso efetivo com outra pessoa. Estabelecer um compromisso acarreta em alguns ganhos , mas sem dúvida em grandes perdas na tão valorizada liberdade individual.

Bauman relaciona o Amor com a Morte. Nessas duas esferas da vida humana, não existem certezas e o que há é uma imprevisibilidade absoluta. Ambos podem acontecer a qualquer momento a qualquer um, e não há nada o que se possa fazer. O ser encontra o Real, que foge ao controle do Eu.

Pelo visto, o ser pós-moderno, líquido, foge do amor assim como foge da morte, pois, acostumado a racionalmente “controlar” todos os meandros da sua vida, teme encontrar o descontrole sobre sí mesmo,  aquilo que desconhece, aquilo que lhe é estranho.

Dentro disso, cabe a cada uma de nós, escolher quais os valores que dignificam as suas vidas e os seus relacionamentos humanos.  Aceitamos, enfim, que somos um produto humano no Mercado das relações? Qual é o seu valor?

*Recomendo a todas interessadas no assunto a lerem a belíssima Obra de Zygmunt Bauman.

              Zygmunt Bauman representa o sentimento do ser líquido. Fofo né?